Sábado, Novembro 14, 2009

Transferências II





" (...) não lhes pode explicar, que há um rio dentro dele e leva a águas revoltas que nem ele sabe o que são, quereria, apesar de tudo, conseguir congeminar respostas (...)"

Carvalho, Rodrigues Guedes; A Casa Quieta. P. 56



Na impossibilidade de usar as minhas próprias palavras, opto por transcrever narrativas, frases, ideias que me fazem 'eco'.

Sábado, Outubro 31, 2009

Transferências I

Foto de sensorfleck
"Quando a vida normal parecia quase possível - quando o mundo ganhava uma certa ordem, sentido, até encanto ( o raio prismático de luz através de um sincelo; a quietude de um amanhecer), alguma coisa havia de correr mal e a capa do optimismo desaparecia, revelando o mundo árido."
Wroblewski, David; A História de Edgar Sawtelle. P. 178

Na impossibilidade de usar as minhas próprias palavras, opto por transcrever narrativas, frases, ideias que me fazem 'eco'.


Sexta-feira, Julho 24, 2009

Consciencialização


Fotografia de pigar



Aquele era o tempo
Em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam,
E eu via que o céu me nascia dos dedos



Em bares escondidos,

Em sonhos gigantes.
E a cidade vazia,
Da cor do asfalto,
E alguém me pedia que cantasse mais alto.



Aquele era o tempo

Em que as sombras se abriam,



E eu bebia da vida em goles pequenos,

Tropeçava no riso, abraçava venenos.
De costas voltadas não se vê o futuro
Nem o rumo da bala
Nem a falha no muro.
E alguém me gritava
Com voz de profeta
Que o caminho se faz
Entre o alvo e a seta



De que serve ter o mapa

Se o fim está traçado,
De que serve a terra à vista
Se o barco está parado,
De que serve ter a chave
Se a porta está aberta,
De que servem as palavras
Se a casa está deserta?



Quem me leva os meus fantasmas?

Quem me salva desta espada?
Quem me diz onde é a estrada?
...
Excertos da música de Pedro Abrunhosa; ‘Quem me leva os meus fantasmas’

Dia a dia… o caminho faz-se entre o alvo e a seta, entre o início e o fim, entre a alegria e o desalento…



Quinta-feira, Julho 16, 2009

Paralelismos

Imagem de Tatsuo Suzuki
Esperava a chegada do transporte olhando distraidamente em volta. Inadvertidamente, fixou o olhar numa das portas à sua frente. Observou os rostos fechados, os olhares que não se cruzavam, as tentativas de afastamento em cada movimento perpetrado pelos viajantes que entravam.
Subitamente, deu-se conta de que poderia fazer um paralelismo.
Cada janela um acontecimento da sua vida, cada porta um caminho que se havia apresentado e que poderia, ou não, ter sido trilhado. Surge a dúvida: E se tivesse escolhido uma porta e não a outra? E se tivesse aberto a porta quando deveria tê-la fechado de imediato? Quais as repercussões que poderiam ter tido essas escolhas no resultado actual?
Enquanto o pensamento deambulava pelos meandros das hipóteses, o movimento de afastamento acelerava, permitindo-lhe, no final, ver uma única imagem desfocada para, logo de seguida, ficar sozinha visualizando o espaço vazio onde segundos antes um objecto bem definido tinha estado.
Na vã tentativa de visualizar algo que lhe desse referências, lutava contra a sensação de que teria presenciado a sua vida projectada naquele meio de transporte. Acontecimentos vividos, caminhos percorridos, portas que se abriram e outras que se fecharam e… na ânsia infindável de que um dia conseguiria atingir os objectivos a que se propunha, esquecera-se de viver. Deu-se conta que o tempo passa a velocidades inesperadas e que, no fim, restaria somente o vazio… do que poderia ter sido, mas não foi!

Sábado, Julho 11, 2009

Caminho


Na companhia de
memórias e fantasmas,
a caminho do...
NADA!

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Nunca Mais

Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.
E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fotografia de Filomena Chito

Terça-feira, Junho 16, 2009

Na ausência...


Na ausência das minhas palavras, gosto de evidenciar outras que me foram endereçadas e que, de alguma forma, me gratificaram.


"Quantas asas pede um voo que partiu em busca de equilíbrio?Quantas leituras tem um livro olhado pelo mesmo olhar, a diferentes horas de nós mesmos? E que leitura será a de um poema em braile, decifrado por alguém que o conheceu antes de cegar?"
Carta de José Cardoso Pires
Numa Cidade Feliz
João Lobo Antunes


Obrigado Isabel!


Fotografia de Carlos Pinheiro

Quarta-feira, Junho 10, 2009

Lêr



Lês para esquecer!
Lês para encontrar o que procuras… ou para te encontrares?
Lês porque te afundas noutro mundo, porque bebes outra realidade… exterior a ti!

Lês porque sim! Para te encontrares e, no fim, te perderes nos meandros das palavras que te levam a outra vida…
outras vidas… que não a tua!


Fotografia: Daniel Rodrigues


Sábado, Maio 30, 2009

Eternidade


A vida, mais não é que uma peça de teatro, em que simultaneamente somos público e actores.


A única certeza, é a ausência da eternidade…




Fotografia de Lauro Santos

Domingo, Maio 24, 2009

Carta aos meus AVÓS.


Hoje, recordo-vos com tanta saudade!
A ti, meu avô que esperaste pacientemente anos e anos a fio, para ver a minha reacção quando finalmente me dissessem… que de avô só tinhas o nome. Ainda me recordo dos teus olhos (seria de medo?) quando me dirigi a ti pela primeira vez após saber a verdade. Qual verdade? Para mim, a única verdade é que eras e continuarias a ser o Meu Avô! Com genética ou sem ela, que me importava, se me deste muito mais do que me poderia ela dar? Não me lembro em que contexto me dirigi a ti, não me lembro de nada, simplesmente da tua expressão. Foste até ao fim, o Meu Querido Avô. Aquele em quem confiava segredos, aquele que adorava acompanhar. Criámos uma ligação que, penso, não ser comum.
Vi-te envelhecer, sempre com um humor invejável. Vi-te agarrar a vida numa embolia cerebral, ouvi as tuas horríveis alucinações visuais provocadas pela avançada idade, e vi o teu sofrimento. Nada podia fazer mas, o meu espírito prático levou-me sempre a acompanhar-te, mesmo nos momentos mais difíceis. Sabias que eu estava ali e agarraste-te muitas vezes à minha presença. Foste aquele que me deu a certeza de que estava de alguma forma a ser útil. Até ao dia, em que me pediste um copo de água. Simplesmente, ainda não estava preparada para perceber as tua difícil comunicação. Falhei! E tu, disseste-me. Desculpa Avô! Ainda hoje te ouço dizer em sussurro: “Não me trouxeste água!” Mas sei que me desculpaste!

E tu Avó, que sempre me compreendeste, que sempre acreditaste e que, mais uma vez, quando te vi numa cama de hospital lamentando o que te sucedeu, não sei como, tive coragem para duramente te dizer palavras que hoje não recordo mas que sentia serem-te úteis. Lembro-me de te ouvir dizer a chorar. “Minha querida neta, sabes tudo!” E eu nada sabia, Avó! Certo é que saíste daquela cama pelo teu pé e a “refilar” porque tinhas que esperar para te virem buscar. Lembro-me de estar ao teu lado e rir. Aquela era a Minha Avó!
Quis o destino, ou o que quer que seja que nos guia ou desvia, que tivesse eu mesma que te orientar para onde não querias… aceitaste! Mais uma vez, falei contigo, agi em função da razão, deixando para trás a emoção, pois essa tolher-me-ia os movimentos.
Nunca nos despedimos com um Adeus, sempre usámos o “até logo”, mesmo que soubéssemos que nos iríamos encontrar semanas, ou meses depois. De tal forma, que hoje, te recordo com um sorriso e um “até logo”.
Quando me viste trilhar um caminho que sabias não ser o mais conveniente para mim, avisaste-me… e não te escutei!!

Meus AVÓS, sendo vós a minha luz, tendo consciência da vossa impossibilidade…digam-me, se puderem, que caminho tomar… digam-me se vos for possível, se existe alguém que me possa levar os meus fantasmas… e me diz onde é a estrada...

A vossa neta.


Fotografia de Pedro Rodrigues.

Quarta-feira, Maio 20, 2009

Solidão


Estar só não significa necessariamente solidão. Estar só, é saudável quando a nossa própria companhia é gratificante.
Solidão, é estarmos sós mas, apesar de o aceitarmos, percebermos que não existe alguém ao lado que nos possa ouvir. Sentirmos que apesar de gritarmos não há sentido auditivo algum que nos capte. Apercebermo-nos de que não há uma resposta do outro lado, mesmo que a pergunta seja feita. Descobrirmos que a linguagem que usámos não é compreendida pelos pares, se ainda existirem.

Por vezes, precisámos de estar sós e afastámo-nos do que nos rodeia e dos que circulam à nossa volta. Porém, na maioria das vezes, quando voltámos, percebemos que estivemos demasiado tempo ausentes. O que antes era, já não o é, e confrontámo-nos com o medo de sermos definitivamente projectados para o vazio… onde nada nem ninguém nos encontrará.
Imagem: Banco de Jardim junto à Igreja da Memória, Belém.

Domingo, Maio 17, 2009

Incertezas


Não sabia, ou melhor, não me lembrei deste evento. Descobri-o enquanto lia as notícias.

Um dia também lá fui. Obviamente, com o intuito de festejar a concretização de um objectivo que tanto custou a atingir.
Tempos atrás recordava este dia com sentimentos antagónicos. Alegria, muita alegria. Nem outra coisa poderia ser, visto que na multidão os sentimentos se confundem e assimilam. Mas também tristeza, por sentir ausências que me magoavam. Mais uma vez, estava só no meio da multidão. Agarrava-me a uma única presença, o meu porto seguro. Na altura, se me dissessem que até esse porto poderia afundar-se, responderia orgulhosa: ‘Que tolice!’

Hoje, ao ver estas fotografias, unem-se aos sentimentos enumerados, a saudade de um tempo em que, apesar de tudo, ainda reinava a esperança, a força e o sonho.
Hoje, a cada portador de um sorriso, desejava poder dizer para aproveitar somente a alegria do dia, pois o amanhã… está recheado de incertezas.

Fotografia retirada
daqui.

Quinta-feira, Maio 14, 2009

Memórias 'de Mahler'.

"(...) a vida é transparente e o passado, fechado em

armários que rangem durante a noite, brilha às vezes, como

as pratas dos chocolates (...) nas mãos das crianças."

Peixoto, José Luís, Cal, p. 75

Domingo, Maio 10, 2009

Percursos


A ideia que cada um de nós elabora acerca de si mesmo (…) é construída ao longo de anos de experiência e é constantemente sujeita a remodelação.” Grande parte desta construção tende a “ ocorrer de forma não consciente, e a própria remodelação também não é consciente. Estes processos conscientes e inconscientes, qualquer que seja a sua proporção, são influenciados por uma grande variedade de factores: traços de personalidade inatos e adquiridos, inteligência, conhecimento, meio ambiente social e cultural. (…) As mudanças que ocorrem no SI autobiográfico ao longo da vida de uma pessoa não se devem apenas à remodelação do passado já vivido, mas também à elaboração e remodelação do futuro antecipado."

No decurso da nossa vida e em todos estes processos inerentes, por vezes, damos por nós completamente desviados do trilho que desenhámos.

Algures no tempo, antecipamos o nosso futuro e remodelámo-lo consoante a realidade que considerámos importante. Normalmente, tendemos a perceber o que conquistamos como imutável, mas esquecemo-nos que a eternidade não existe. Numa tentativa de não perdermos o que com tanta luta obtivemos, vamos dando de nós, cedendo, interiorizando valores que muitas vezes nem são os nossos, perdendo-nos…

Insistimos em guardar para os meandros do inconsciente aquilo que nos é desconfortável, escondendo-nos de nós próprios pelas mais variadas formas… até que um dia esse conteúdo tanto tempo inconsciente, brota numa amálgama de sentimentos que a maioria das vezes não percebemos.

É nessa altura que nos deparámos num caminho envolto em nevoeiro, perdidos num marasmo que impossibilita a previsão de um futuro. Quando por fim olhámos em volta, consciencializámo-nos de que teremos que mergulhar em nós mesmos, correndo o risco de parecermos egoístas e não sermos compreendidos, para de novo subirmos a pulso os pilares da ponte que nos indicará a continuidade do percurso de vida.

Conheço este sinuoso caminho, contudo ainda tenho a ténue esperança de que possa atingir o cimo da ponte…

Damásio, António, O Sentimento De Si. p.259
Fotografia de F. Monteiro

Segunda-feira, Maio 04, 2009

Passagem



Tenho que dormir!
Não é a ausência do sono a causa do medo. É o período que permeia a passagem do estado de vigília para o sono. É o pequeno mas intenso espaço de tempo permeável à emergência do pensamento que corre veloz … sem que nada possa ser feito para parar.
Resta esperar a queda num conteúdo onírico que já se prevê perturbador, e acordar para um novo dia, invariavelmente igual aos outros.
Pintura de Vincent Van Gogh