segunda-feira, março 09, 2009

Brisas e Tempestades


As crianças e o seu pensamento são o que de mais belo e puro podemos encontrar. Não pensemos que estão desatentas, que podemos ter as mais variadas conversas porque não somos entendidos. Normalmente somos muito bem percebidos e, quando tal não acontece, mais tarde ou mais cedo a pessoa sobre quem estava posicionada a sua incompreensão acaba por sabê-lo.
Não preciso de prova, mas a história que se passou com a minha sobrinha de 8 anos é um exemplo perfeito.
- Ó tia dás-me um copo de àgua?
- Claro querida, vem comigo que to dou.
Enquanto lhe preparava a àgua, diz-me ela:
- Ó tia tu tiraste um curso de (…)?
Olhei para ela um pouco surpreendida e pensando por um lado onde quereria ela chegar, por outro admirada como é que ela, sendo minha sobrinha e da qual estou tão perto, sabia tão pouco da minha vida. Respondi-lhe afirmativamente pensando já em perguntar-lhe se não sabia. Não tive tempo porque de imediato avançou:
- Então porque trabalhas em (…)?
Apanhada de surpresa, respondi-lhe:
- Sim querida tirei porque gostava muito, mas como não consegui trabalhar nessa área acabei por trabalhar onde conheces.
No meio dos meus pensamentos rápidos dentro daquela conversa e de alguma emoção, devo ter ficado sem noção do tempo. Ouço a mesma vozinha:
- hummm, pois! Mas eu ainda não tenho a minha àgua!!!
A rir, servi-lhe o que me pedia mas fiquei a pensar como sem querer e na mais pura das inocências, aquela criança de quem tanto gosto, tocou num ponto fulcral.
O desenvolvimento da vida de cada um de nós. Os gostos muito particulares, os objectivos que pretendemos atingir em determinada altura, o trabalho muitas vezes sobre humano que fazemos, a luta pela concretização de um sonho e … a vida que pode ser “(…) como a brisa suave que precede as tempestades brutais; parece doce mas é amarga, tal como a rosa que atrai com as cores vivas das pétalas e trai com os espinhos que as folhas ocultam.”
Cit. Santos, José Rodrigues; A Vida Num Sopro, p. 68.
Imagem: Pino Art (2006), Close To My Heart.

8 comentários:

Roderick disse...

A vida num sopro. Li-o num sopro!
Beijocas

Isabel José António disse...

Querida Amiga Alexandra,

A Vida Num Sopro, de José Rodrigues dos Santos, retrata o que Portugal era naqueles anos de implantação do Estado Novo e durante a Guerra Civil Espanhola e preâmbulo da II Guerra Mundial.

Duro, imbecil, iníquo e feroz, cortanto a direito sentimentos, sonhos e projectos, sedimentando-se durante 48 longos anos e deixando sequelas inimagináveis que, pese o espanto, ainda deixam hoje marcas.

E, querida amiga, sobreviveram aqueles que mantiveram a intenção bem firme na liberdade e noutros voos.

Parabéns.

Acredite (lembra-se do seu comentário)porque o facto de acreditar, produz a energia que a há-de levar para a frente e para onde quiser. Não estou a falar em "fé cega". Estou a falar na energia, produzida por uma forte intenção e mantida com forte constância, que dirigida pela nossa vontade, produz a condução da nossa vida por entre as dificuldades.

Um abraço e disponha sempre.

José António

adivinha disse...

(Não diga nada a ninguém: mas estou a dar uma facadinha a meio da hora de serviço!)


Gostei deveras do seu texto.
De facto, como são tortuosos os caminhos da vida, sendo que o da felicidade é o mais pedregoso. Mas tenho para mim, que a perseverança e o correr atrás do sonho traz o prémio de nos revermos nos nossos projectos de vida.

Ou não?

Serei tão "conscientemente" inocente como a sobrinha da Alexandra?

Maria P. disse...

Pois, faz pensar...
Mas eu tenho senpre esperança, sou assim.

Beijinho(s)*

Mocho Falante disse...

não conheço a obra, mas definitivamente gostei deste post que nos deixa a pensar...

beijocas

Desambientado disse...

Soube-me bem ler este post. reconfortou-me, tocou-me. Pois não é facil percebermos que a vida é efectivamente um sopro, mas que seja, já que não pode ser outra coisa, um sopro de frescura.

Luisa disse...

As criançs acham que todos os sonhos são concretizáveis. Por isso ficam admiradas quando os adultos não o consegem fazer. Deixá-los viver nesa doce ilusão têm muito tempo para aprender com a vida...

Bruce disse...

Há alguns dias vi uma imagem que continha uma pequena frase, mas que me disse muito:

"Work less Dream more"

Estas 4 palavras retratam bem como a vida deve ser vivida, numa era de digitalismo crescente, de impessoalidade crescente, de encurtamento de tempo crescente.