segunda-feira, junho 05, 2006

Reflexão !

António Lobo Antunes começou por utilizar o material psíquico que tinha marcado toda uma geração: os enredos das crises conjugais, as contradições revolucionárias de uma burguesia empolgada ou agredida pelo 25 de Abril, os traumas profundos da guerra colonial e o regresso dos colonizadores à pátria primitiva. Isto permitiu-lhe, de imediato, obter um reconhecimento junto dos leitores, que, no entanto, não foi suficientemente acompanhado pelo lado da crítica. As desconfianças em relação a um estranho que se intrometia no meio literário, a pouca adesão a um estilo excessivo que rapidamente foi classificado de "gongórico" e o próprio sucesso de público, contribuíram para alguns desentendimentos persistentes que se começaram a desvanecer com a repercussão internacional (em particular em França) que a obra de António Lobo Antunes obteve.

Extrato da biografia de António Lobo Antunes, retirado do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas.


Scream, Munch


Tinha a certeza que sonhara aquele sonho na véspera ou na antevéspera
na véspera
e por isso mesmo, sem acordar, pensava
- Não merece a pena preocupar-me já conheço isto
desinteressado de episódios que sabia falsos
- Estou a dormir
me assustaram ontem, não me assustavam mais
- Para quê ralar-me tudo mentira
consciente da posição do corpo na cama, de uma prega de lençol a doer sob a perna, da almofada
como sempre
a escorregar entre o colchão e a parede, os dedos
independentes, sozinhos
procuravam-na, agarravam-na, traziam-na de volta, dobravam-na sob a bochecha que por seu turno se dobrava nela, que parte de mim a almofada e que parte a bochecha, os braços prendiam a fronha e eu a assistir aos braços
- São meus
espantado de me pertencerem, consciente que um dos plátanos da cerca, de noite um borrão no vidro e agora nítido, entrava sono dentro erguendo-me a cabeça
apenas a cabeça visto que a prega do lençol continuava a doer
na direcção da janela a seguir ao gabinete onde o médico escrevia uma informação ou um relatório
a secretária, a cadeira e o armário velhos, a porta sempre aberta por onde os doentes espreitavam a pedir cigarros, sujos de barba, de olhos mortos
nunca fui capaz de comer os olhos dos peixes no restaurante, o meu tio espetava o garfo e eu cego, a gritar
não reparam em mim, nunca ninguém repara, os enfermeiros limitavam-se a empurrar-me para fora
- Vamos lá vamos lá

in Que farei quando tudo arde?, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2ª ed., 2001, pp.11

Gosto da obra de António Lobo Antunes. Pesquisava algo sobre ele quando li este excerto.
As memórias das aulas no hospital Miguel Bombarda emergiram. Para quem já lá esteve,sabe que à entrada, somos confrontados com os seus utentes. Neles, nada há de mal... muitas vezes entrava no recinto exterior e já tinha alguém educadamente, a pedir: "Não tem um cigarrro sra dra?" Acho que nunca recusei nenhum... Para eles, não era necessário saber se eu era a empregada que tratava da limpeza, uma estudante, ou alguém já formado. O seu mundo resumia-se a eles mesmo e ao que os rodeava naquele instante. Se estava a entrar naquele sitio, então, nada mais poderia ser senão DRA.
Foram vários os dias que por lá andei, mas sempre me deparei com a grande solidão reinante. A consciência de si próprios existia algumas vezes, outras não... eram simples seres que embrulhados dentro de si mesmos faziam circulos num chão já gasto, pensando... delirando...com medo...sem medo...sedados! No jardim interior poucos estavam, mas se lá se encontravam, a mesma face aparecia... ausente!!!

Voltando ao nosso mundo, aquele em que todos têm, ou deveriam ter, consciência de si próprios e dos actos que praticam, levanta-se a mesma questão. Os medos não existem? A solidão, não existe? E aquela a que chamo, solidão acompanhada, onde nos encontramos envolvidos por multidões, mas somos seres estanques. Não existe? Nada disto existe em nós? Aqueles que se consideram, e são considerados pelos pares, como seres perfeitamente normais...?!

15 comentários:

RPM disse...

olá amiga Alexandra....

que coisa engraçada. Estou a ler pela primeira vez, alguma coisa de Lobo Antunes e qualquer coisa de interesse fora do mundo da economia....

e estou a ler o Cús de Judas...já me ri muito com a forma de escrita...muitos adjectivos....

estou a gostar...e este teu texto vem a calhar....

beijo e obrigado pela visita

RPM

TRILHAS&TERRAS = Homem em Movimento disse...

Agora, como eu, ficas com duas janelas para teus muitos olhares...

Beijinhos para teu dia...

Cris

Pedro Melo disse...

Oi! Eu achei este post soberbo. è quase como aquelas coisas simples que lemos e que sabemos que ate acontecem mas que nao lhes damos o devido valor... e que nunca afinal pensamos nelas o suficiente.

Acho que o mundo real tudo existe, todos os aspectos que parecem sonho... talvez porque nao sabemos bem como sera o dia de amanha... ou que consequencias trará o dia de hoje... bem não sei...

Acho que vou reflectir sobre tudo que aqui esta escrito novamente... tem tanto que podemos descobrir...


Magnifico!

Jasmim disse...

Já faz algum tempo que acompanho a sua escrita,por intermedio de um blog amigo...
Muitas vezes estive para comentar o seu outro espaço mas não sei bem porquê nunca o fiz,hoje aqui estou...e deixe-me que lhe diga que este texto de reflecção está realmente magnifico!
Um beijo em si

segundavida disse...

Alexandra, muitos parabéns por este post, li,reli e meditei bastante sobre a "vida" destas personagens. Também trabalho com o público e a servir o público e deparo-me com seres humanos assim e a vaguear por esse mundo. Penso que os medos e a solidão existem cada vez mais nos seres humanos, cada dia que passa, cada problema que se nos depara, cada preocupação da vida vem criar receios, que por sua vez leva ao isolamento interior, a criar barreiras invisíveis nos cérebros das pessoas. Quanto à obra de António Lobo Antunes, infelizmente li ainda pouco, mas vou procurar ler mais. A imagem "grito" do Munch, está a condizer. Uma óptima semana e felicidades.

Lâmina d'Água, Silêncio & Escriba disse...

Beijinhos para teu final de semana!!!

Cris

Lâmina d'Água, Silêncio & Escriba disse...

Beijinhos para teu final de semana!!!

Cris

Lâmina d'Água, Silêncio & Escriba disse...

Obrigada por tua passadinha!!!
Beijinhos!!!

Cris

RPM disse...

Olá Alexandra!

Obrigado por teres passado pelo eu cantinho, obrigado pela tua opinião.

Ontem estive a falar com a minha colega de trabalho Teresa Louro, uma excelente mulher e professora de Português, depois de lhe mostrar o texto sobre a Aparição..e disse-me para ler, agora, o Memorial do Convento. Esta obra está aconselhada para o 12º ano, também.

Esta Aparição é muito 'forte' para alunos em fase inconstante de maturidade...e não vá acontecer o que o 'Bexiguinhas' resolveu fazer à Sofia.....

que acha!!

Obrigado e bom fim de semana

RPM

Paulo disse...

Bem, hoje que tenho algum tempo estou a fazer uma ronda pelos blogs dos amigos, e li este seu texto. Sei realmente o que sente, também eu passei o mesmo, no 1º contacto com estes doentes. Mas... não gosto do António Lobo Antunes, ou melhor, não tenho pachorra para os textos dele, como dos do Saramago. Cansam-me!
De resto concordo consigo, cada vez temos mais solidão no meio da multidão. Em parte porque perdemos o gosto de partilhar a nossa vida com os vizinhos e amigos, "temos pouco tempo" para tudo, estamos sempre atrasados para algo "muito importante" que já foi, não é... Beijinhos :)))

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