quarta-feira, outubro 11, 2006

Que direito...?


Não gostava de entrar por este assunto pela sua polémica, pela sua sensibilidade, pelas diversas formas de ver o mundo e acima de tudo por gostar de respeitar as diversas formas de pensamento.

No entanto, não resisto a escrever algo sobre alguém que ontem vi dando uma entrevista na televisão: Ana é uma doente terminal que defende a eutanásia. Numa entrevista única, no Jornal da Noite, pede para poder ser ela a decidir o futuro. Porque tem "muito medo da vida". Tem "muito medo de ter dores, de perder a dignidade". Porque, diz, a morte não a "assusta nada". (1).

Quando vi esta pessoa à minha frente, usando estas e outras palavras para defender o que achava por conveniente dizer acerca da sua situação e, apesar de já há muito tempo, defender que todos temos direito a uma vida digna de tal nome, considerando por isso que o sofrimento, não sendo mais que ( em alguns casos) o prolongamento da agonia do que todos sabemos que inevitavelmente irá acontecer, iniciei um novo caminho no raciocínio que me leva a perguntar se teremos nós o direito de obrigar seja quem fôr, a sofrer até ao fim? Como seres humanos, devemos aceitar isso? Devemos manter essa ideia conformada de que tem que ser assim?
Freud escreveu que : “O indivíduo num grupo está sujeito, através da influência deste, ao que com frequência constitui uma profunda alteração na sua actividade mental. A sua submissão à emoção torna-se extraordinariamente intensificada, enquanto que a sua capacidade intelectual é acentuadamente reduzida, com ambos os processos evidentemente dirigindo-se para uma aproximação com os outros indivíduos do grupo (…)” (2)


Ao ler estas palavras, associei-as a toda a controvérsia existente, no que concerne ao tema em questão. Somos uma sociedade que equivale a um grupo, onde o individuo está inserido, sofrendo por isso a sua influência. Ao usar esta teoria teria que assumir uma submissão à emoção colectiva, aceitando por isso que a capacidade intelectual de cada individuo é reduzida face aos valores da socialização, por forma a que se verifique uma aproximação ao pensamento dominante no grupo.


Tendo consciência de que estou a fazer uma simplificação demasiado reducionista, será que não existe alguma verdade nestas relações para que um tema destes dê tanta polémica? Será que ficamos tão arreigados aos nossos valores que não nos é permitido pensar de forma mais ampla e, aceitar a versão daquele que está, de facto, a passar pela real situação, negando-lhe assim os seus próprios direitos, em função do que tanto nos assusta mas que não é mais do que uma realidade da qual nenhum de nós escapará?


Um assunto que prevejo seja discutido, mas que penso nunca haver possibilidade de consenso…



(1) Sic Online de 2006-10-11

(2) Sigmund Freud, in 'Psicologia das Massas e a Análise do Eu'

Quadro: A criança doente, 1885/1886, E. Munch

16 comentários:

isabelnurse disse...

Olá minha amiga,

bom, estava a ver se não era eu que começava, mas cá vai, eu e minhas emoções. Surgiu há poucos anos a Bioética, uma nova ciência que se impôs pela necessidade de discutir uma série de novos problemas que advêm do avanço das novas técnologias.O grande dilema está lançado, deve ou não fazer-se tudo o que a tecnologia permite no contexto da morte e da vida?
Devemos assumir uma atitude de reflexão profunda e de respeito pela diginidade humana, todos estamos conscientes que estamos longe, muito longe de chegar a um consenso sobre matérias como o aborto, a eutanásia, o prolongamento artificial da vida, a clonagem, são assuntos polémicos, dolorosos, geradores de controvérsias. Que fazer? A quem cabe decidir? Quem pode demitir-se desta realidade? Nenhum de nós!
Perdi há pouco menos de três meses uma das pessoas que mais amei, eu sabia, ela sabia que ia morrer, sabia que o tempo que lhe restava seria de sofrimento, mulher inteligentissíma diz-me um dia "que sentido faz a minha vida, minha querida, este sofrimento
é uma indignidade!" Eu como profissional de saúde sabia, o sofrimento não faz sentido, é profundamente injusto e absurdo, eu mesquinha, egoísta, queria que ela estivesse ali continuasse a segurar-me a mão, a sorrir quando eu chegava, quase sem força para me chamar "querida", eu não consegui ser lúcida, profissional, pensar,porque quem estava ali era um ser querido, adorado, um dos pilares da minha vida, que estava a partir lentamente em sofrimento, mas era a minha adorada "mãe".
Permitam-me dizer-vos, que estas questões não terão solução, enquanto reinar entre nós a força do amor, das emoções sobre a força da razão.
Se soubessem a falta que ela me faz,tive a felicidade de ter bons amigos a ajudar-me, mas a " falta de mãe" não consegue superar-se, deprime-nos, falta-nos o chão, perdemos por vezes a capacidade de pensar claramente, tolda-nos os sentidos, como me disse um amigo meu, talvez tivesse razão...
Belinha ( era assim que ela me chamava)

antonior disse...

Olá, Alexandra!

Antes de mais, aplaudo a escolha do quadro de Munch para ilustrar um tema tão profundo.

Depois, cumprimento a minha antecessora nestes comentários, pela sensatez e sensibilidade do que disse. Concordo com o ponto de vista. Eu também perdi a minha mãe em circunstâncias que levantaram diversas questões desta natureza. Talvez por isso concorde, porque até aí tinha certezas que perdi. Aliás a vida ensina-nos a perder algumas certezas quando o nosso olhar se torna menos turvo e mais lúcido.

O ser humano desde cedo teve de lidar com questões para além do seu descernimento. Mas nunca aceitou esse facto como tal. Nem nunca aceitou não ter competência para tomar decisões acerca do que ignora e lhe é vedado saber.

Sempre arranjámos explicações e soluções tão impróprias como as regras que definimos para condicionar as decisões sociais sobre os grandes temas.

Com consequências desastrosas sugiram religiões, dogmas, desígnios cruéis de Deuses saídos de mentes distorcidas com as suas ilusões, políticas lunáticas de outros convencidos de serem deuses e, por aí fora.

É certo, que o tempo passa, ganhamos mais conhecimento tecnológico e encontram-se algumas respostas. Mas o problema é que Sócrates (o da antiguidade !!!) tinha razão! Por cada resposta surgem mil perguntas e o horizonte de dúvidas expande-se exponencialmente. Aquilo sobre o que mais devíamos estar a aprender era sobre a nossa ignorância. E mais uma vez fugimos a isso.

Pois, Alexandra, não sei responder a uma questão dessas e nunca ninguém saberá. No entanto, perante, as circunstâncias criadas, haverá sempre que decidir, quando se está em circunstâncias disso. Cada caso é um caso, e nós nem sabemos, que direitos temos sobre nós próprios, porque não sabemos quem somos, de onde vimos e para onde vamos.
O que é um facto, é que uma vez que já não é a mãe Natureza a decidir até onde vamos, e a tecnologia tomou conta das coisas, alguém vai ter que decidir manter as máquinas ligadas ou carregar no botão que desliga.

Decidimos brincar de Deus e o fardo é demasiado pesado para as nossas costas.

Beijinhos.

RPM disse...

pois....Isabel!

essa senhora se tem dignidade no acto que queria realizar, deveria ficar calada e assumir perante o seu advogado e um médico o acto...

não para ir à TV...até pareceu um show...muito vergonhoso!

eu sou adepto da eutanásia antes das coisas ocorrerem...ou seja, antes, muito antes de nos diagnosticarem qualquer problema....

a senhora em causa queria o seu 'tempo-de-antena' e as televisões deram-no!!!

é uma pena

sim à eutanásia, mas com dignidade. sem publicidade!!!

sou católico e sou pela vida. mas como cada um é dono do seu corpo faz o que bem entende...as mulheres têm outro poder, INFELIZMENTE. Decidirem sobre a vida de uma terceira pessoa que está numa placente e num ventre....

um beijo de amizade. Vi a reportagem e pensei o que acabo de escrever

beijo mais uma vez

RPM

Bia disse...

Olá! tema bastante polémico, mas sobre o qual eu tenho uma ideia bem definida, todos nós estando no poder da nossa capacidade mental, deveriamos poder decidir, como queremos terminar a nossa vida, não é a questão da morte, eu falo da dignidade a que todos temos direito, e há situações de sofrimento impensável aos nossos olhos, a vida deixa de fazer sentido e a única coisa que predomina é o sofrimento á espera que o coração pare de bater, deve ser do pior... nem é bom pensar...
Mas temos que pensar! Os doentes na fase terminal têm direito a morrer com dignidade, uma vez vi um filme cujo o título era "Até os cavalos se abatem..." eu penso que este título quer dizer tudo...
Apesar de triste é um tema que deve ser falado, ninguém está livre de nada... PARABÉNS

Tó Luis disse...

Oi Alex...
É como se fosses da casa (Galeria),por isso cara amiga não é preciso bater á porta...entra...

Na Galeria:
Muitas das minhas pinturas têm grande parte da minha vivência , outras não tanto , o (O Imaginário)foi com a intenção de tentar despertar algum pensamento que pode estar esquecido no passado,presente e um alerta para o futuro , mas claro é como tu o dizes (pode ser interpretado segundo o mundo interior de cada um)...penso que esta frase define todas as questões com interrogações...

Aqui no A Kind of Magic II:
Sabes que sofri no passado com os dias antecedentes á morte do meu Pai , ele tinha os dias contados , um mês e nem mais , sofreu imenso (Leucemia no sangue) , nem tenho palavras para com esse sentimento , mas nunca houve altura alguma em que eu desejei a morte imediata do meu Pai apesar de todo aquele sofrimento...o que eu quero dizer é que ás vezes e neste caso é facil falar quando não é ninguém da nossa familia ,um ente querido que nos deixa , porque quando é dos outros , somos tão fortes e tão fortes...e faziamos tudo , quando nos toca na pele ficamos pequeninos...tudo encolhe , até o coração...e muitas das vezes mudamos de atitude...e pergunto:
como se pode lutar contra a força do amor , das emoções sobre a força da razâo?...(frase de uma amiga que te visitou)(Isabelnurse)(Ela que não me leve a mal mas levantou uma questão sem solução quando a intensidade do amor é enorme...

Kiss Alex e força contigo tudo de bom...

xano disse...

Olá Alexandra,

Também eu assisti de perto a uma situação idêntica, no caso com o meu pai.
Lembro-me de um dia o ver indignadíssimo com uma reportagem sobre um nadador salvador espanhol (o mesmo que serviu de inspiração ao filme Mar Adentro) que reclamava em vão o fim da sua vida (após ter sofrido uma lesão na coluna e ter ficado paraplégico, isto se a memória não me atraiçoa). Penso que na altura já ele temeria por um fim idêntico para si mesmo e não conseguia perceber a tremenda injustiça de estar irreversivelmente numa cama, dependente de tudo e de todos, sem nada poder fazer.
Anos mais tarde, e fruto de cerca de 15 anos de intensa medicação para atenuar uma artrite reumatóide crónica, era ele, o Grande Mário, a estar deitado numa cama, sem qualquer dignidade, sem amor-próprio e sem orgulho da vida...
O meu Pai era um homem notável, extremamente empreendedor, uma pessoa que apenas não sabia o que era estar parado. Sei que lutou enquanto pode, enquanto teve forças. Sabia disso quando o ouvia reclamar do seu triste dia-a-dia que o impedia de ser ele. Percebi sempre a razão dos seus lamentos, mas apenas e só o meu egoísmo me fazia dizer-lhe que ainda iria conseguir sair daquela maldita cama, que iria conseguir andar e que iria conseguir conhecer mais países pelo mundo fora...
Estranhamente, num dia qualquer, encontrei nele um pânico imenso de morrer. Já não reclamava com mais nada, já lhe era normal o seu quotidiano entre a cama do seu quarto e a cama dos hospital. Senti nesse dia que o fim estava próximo.
Talvez ele tenha baixado os braços, aceitando aquela triste sina. Talvez tenha preferido aceitar a sua agonia constante em troca de estar com aqueles que mais amava. Talvez tenha mesmo perdido a capacidade de pensar, de raciocinar e de decidir o melhor para ele...
Jamais poderei saber.

Este tema está de facto bastante envolvido pela polémica e pela controvérsia. Li com bastante atenção o seu post e os comentários do mesmo e realmente já muito foi dito, e pouco mais há a acrescentar.
De qualquer modo faltará sempre a opinião lúcida de quem se encontra num ponto de não retorno...

Bjs grandes para si, e um abraço especial a todos que, tal como eu, assistiram de muito perto a esta situação.

Isabel José António disse...

Olá Alexandra

Temos tido um problema dos diabos com o computador. Ainda está assim assim mas já permite efectuar respostas.

Este tema que aqui nos trazes, tem a ver com o que se considera vida. Vida não é só o óvulo e o espermatozoide se encontrarem. Vida é também todo o enquadramento que se faz da própria vida.

Por vezes parece-nos estarmos no meio de muitos "ismos" (fundamentalismo, extremismo, fanatismo, etc., etc.) Há uma coisa que toda a sociedade deveria ter sempre em atenção. Trata-se do Livre Arbítrio. Este é reconhecido por religiões e ciências. E o livre arbítrio, se a natureza no-lo deu, é para poder ser exercido. Livremente. Se houver contas para ajustar (com Deus, com a vida ou consigo próprio) será da responsabilidade do próprio.

Então, se a pessoa está lúcida, porque não poder escolher entre morrer e continuar a sofrer horrivelmente?

Um abraço

José António

Sophie disse...

Olá Isabel,
em relação a este assunto tão polémico, faço minhas as palavras do rpm, concordo em pleno com o comentário dele(a).
Obrigada pela tua visita, vou voltar.
Beijinhos

Sophie disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
redonda disse...

Sobre a morte sem dor e com dignidade gostei de ler os livros da Marie de Hannezel publicados cá em Portugal: A Arte de Morrer (também de Jean-Yves Leloup), Diálogo com a Morte e Nós não nos Despedimos (ao invés da eutanásia e com base na sua experiência profissional fala da importância dos cuidados paliativos e de viver os últimos momentos)
Tema muito sério mesmo.
Um bejinho

Papoila disse...

Querida Alexandra:
Tema muito polémico este!
Quando a morte cerebral está definida não é eutanásia desligar as máquinas que sustentam a vida. Quanto à reportagem em causa concordo com o comentário de RPM e faço só um reparo... Freddy Mercury que adoramos e que canta no teu blog gravou até ao fim e seu último CD é um hino à vida...
Sabia que o fim estava próximo mas cantou sempre e deixou-nos aquela obra-prima... "Just in Heaven"
Beijo

meialua disse...

Realmente este assunto é daqueles que tem sempre as duas faces da moeda e da questão...

Não me vou alongar mais porque se começo sei que não iria parar para aqui com as minhas teses, lol

Deixo-te uma beijoka grande de bom fim de semana*

Jo§e disse...

Olá amiga Alexandra
É bom desenterrar estes temas polémicos de vez em quando, quanto mais se falar e debater, melhor podemos formar as nossas opiniões.

Um beijo e bom fim de semana

Å®t_Øf_£övë disse...

Alexandra,
Sem querer entrar em grandes polémicas, porque aí eu estou de acordo contigo, tratasse de um tema em que dificilmente haverá alguma vez consenso, a minha opinião sobre este assunto está completamente em sintonia com o que foi dito nessa entrevista, à qual eu também assisti.
Bjo.

Anónimo disse...

Alexandra, não vi a reportagem a que te referes no teu post, mas vivo na minha vida profissional com muitos dramas exactamente iguais. E, pior ainda, já vivi pessoalmente um drama desses com a minha mulher, que acabou por falecer. E passei 1 ano e meio a viver ao seu lado, sempre sorridente, como nada fosse, sabendo de antemão que a sua sorte estava traçada. Por tudo isto experiência não me falta sobre o assunto, e no entanto, não consigo ter uma opinião firme sobre o assunto. Mas penso, e acredito, que todos nós temos direito a uma morte digna, sem sofrimento. Por isso digo, o que é importante, é mais e melhores apoios para estes doentes, não só clínicos, mas também sociais e familiares, para que ninguém diga: - matem-me! porque tem dores, porque está só e abandonado, porque sente ser um fardo para os seus.
Um beijinho.

Nuno Guronsan disse...

Olá, Alexandra. Gostei muito de ler as tuas palavras e os demais comentários que aqui foram escritos, mesmo alguns com os quais não concordo mas que respeito,dada a complexidade do assunto. Eu só queria aqui deixar uma breve opinião. Sou católico mas antes de mais sou pela vida. Mas não uma vida com dor e sofrimento para lá dos limites do ser humano. Assim, defendo que a vontade do ser humano, e quando já não há mais possibilidades de lhe atenuar esse sofrimento, deve imperar. É a sua vida e eventual morte que estão em causa. Cada caso é um caso. E é óbvio que o caso muda sempre de figura quando a situação ocorre debaixo do nosso "telhado". Mas por príncipio, defendo que a dignidade de uma vida só a essa vida diz respeito, mesmo na presença de pessoas que a amam e querem que viva eternamente.

Beijinhos.